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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Duas flores. De lis

 

Rio - Flordelis. A poesia do nome se estende pela prosa da vida. Ela é mulher. Espaço humano onde a esperança encontrou espaço para crescer, lançar raiz. Cresceu tanto que oferece em cestos aos que dela se aproximam. Cumpre na carne a proeza de ser simbólica; território que proporciona o encontro da poesia com a atitude.

Nasceu na favela. Cresceu num ambiente marcado pelas restrições. Carência material que não teve o poder de empobrecer a alma. Desafiou a regra simplista que acredita na predestinação que o espaço físico pode impor ao ser que o habita.

Flordelis é um nome bonito. Remete ao contexto da poesia do mestre Djavan, ao lamentar a morte de seu jardim, ao constatar que suas riquezas estão ressequidas, sepultadas pelo poder absoluto da morte. Canção que tem como ponto de partida o discurso da falta, impossibilidade de um amor terminado, esperanças findadas, imposição de um destino que disse não àquele que só desejava ser feliz.

Mas há um detalhe interessante. Aos ouvidos desavisados a canção parece ter nascido de motivos felizes. É que a beleza da melodia não nos permite perceber a tristeza da letra. Coisas de Djavan. Virtude de conseguir revestir de leveza o que é naturalmente pesado e sofrido. Mestria que o poeta tem de tocar as feridas com dedos leves. Ofício de aliviar os pesos que estão colocados sobre os ombros da humanidade.

A poesia de Djavan está costurada nos motivos que movem a personagem de minha estreia nesta coluna. Flordelis é apaixonada pelos jardins que estão aparentemente mortos. Aprendeu a se aproximar dos calvários da vida. Subiu morros, desafiou traficantes, converteu ódio em amor, fez alquimia no coração dos violentos. Ofereceu ternura aos que antes não conheciam a força restauradora da palavra que tem o dom de bem aventurar, isto é, colocar no caminho do bem.

Flordelis não tem muitos recursos. Ela só acredita no poder da palavra. “Basta uma palavra para mudar”. Este é o subtítulo do filme que relata o seu desejo de reflorescer o espaço humano.

Confesso que não a conhecia. Fui impactado pela sua história, quando casualmente eu a encontrei num canal de televisão. A entrevista girava em torno de sua tentativa de melhorar as estruturas da sociedade em que está situada.

O lar de Flordelis é um canteiro de crianças rejeitadas. Elas são muitas. Fiquei comovido com a história de Rayane, uma menina que contou ter sido jogada fora pela mãe biológica, assim como se joga um objeto indesejado. Durante o relato do abandono, os olhos da menina estavam inundados de lágrimas. Motivos diversos. Mas o que prevalecia era a gratidão. Flordelis a encontrou. Ofereceu maternidade, colo aconchegante, lugar terapêutico onde o passado seria esquecido, catarse que só o amor pode fazer acontecer.

Acho interessante e sugestivo começar esta coluna com esse paralelo. Flordelis faz com a vida de seus filhos o mesmo que Djavan fez com a história triste que é a matéria prima de sua canção. Ela reveste de melodia feliz.

O lar de Flordelis é um canteiro de histórias tristes, mas lá quem prevalece é a alegria. A fórmula? A palavra que escolheu para nortear a vida de seu lar: o amor. Ela é representante da bondade. Descobriu que o mal já tem adeptos demais. Quis fazer a diferença. E fez. E faz. Flordelis é uma proposta humana que não quero perder de vista. Ela traz no coração e na mente o código que distingue um ser humano de todos os outros. Flordelis é uma canção bonita que quero escutar sempre, assim como escuto a Flor de lis de Djavan. O mundo carece dessas composições.

Padre Fábio de Melo    

Fonte: Jornal O Dia 

Um comentário:

Cecilia disse...

Parabéns Padre por partilhar conosco a sua alma.
Lindo texto.
Deus o abençõe.
Com certeza o Sr.è Jesus na minha vida.

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